Sobre naturezas, artes e culturas: bricolagem antropológica

por Alef Lima

            Lévi-Strauss, com toda a sua trajetória não pode ser categorizado como um autor simples. Suas imbricações e análises figuram com densidade entre o status científico que a Antropologia assumiu ao longo dos anos. Talvez por esse aspecto é que Passeti (2008), insiste em absorvê-lo de maneira complexa, cheia de ênfases pré-dispostas a uma convergência eminente, e mais como um recorte permeado por relações que o dissolvem dentro do paradigma do estruturalismo. Desta maneira, o livro de Passeti (2008) é um ato de dissolução, onde a própria jornada do autor é desvendada, segundo suas conclusões mais intensas, fazendo do texto uma estrutura costurada em torno das conexões entre a natureza, arte e cultura.

            O livro é resultado de uma tese de doutoramento, e enquanto instrumento de acesso ao bem simbólico do certificado de doutor(a) resguarda o intento de uma parcialidade necessária para a elaboração do mesmo. Os argumentos organizam-se por uma ordem cronológica, e a partir dai surgem digressões e conexões entre percursos e fenômenos. Constrói-se uma biografia, baseada, antes, num esforço genético e calçado na metodologia arqueológica de Foucault, quer dizer, sua formatação é diacrônica e as suposições ligam-se eminentemente a um passado que implica consequências diretas-indiretas (necessariamente) no presente.

            Composto em sete capítulos que funcionam em meio a uma distribuição de tópicos, a autora faz emergir os campos de investigação de Lévi-Strauss, religando-os com elementos biográficos. Desde nascimento em Bruxelas até a entrada na Academia Francesa de Letras. Neste percurso elaboram-se as memórias na forma de fontes epistêmicas. A viagem ao Brasil, suas jovens etnografias entre os povos Jê. A resiliência em encontrar um programa científico para a ciência antropológica. O colocam como aquele que está somente de passagem. A arte fio condutor da abordagem da tese, mostra-se um tanto insuficiente ao remontar as interlocuções com outros campos de conhecimento que o antropólogo se interpôs na forma do bricolador; ocorre que suas influências o camuflam, ele é dissolvido, o contrário seria impossível. Dado que o Budismo e o estruturalismo o convocam a perceber que a ontologia é o vazio, as aparências interessam ao pesquisador por serem provisoriedades subjacentes ao nada que as remete.

            Desta maneira, inscreve-se que o mais fundamental é: “como as partes estão posicionadas e quais os seus movimentos, suas relações, compondo combinações que podem ser traduzidas em sistemas e estruturas. Assim, cada vez mais, a forma passa a predominar como objeto de pesquisa, caracterizando como os elementos se movimentam, se conjugam, se contrapõem.” (PASSETI, 2008, p.13) Logo, os fragmentos reformulados por esta perspectiva nos servem para pensar uma trajetória, mais do que, uma única relação. A autora consegue fazer as devidas conexões teóricas – reexaminando influências explícitas do autor, a saber: o marxismo, a geologia e a psicanálise. Atendo-se também aos contatos sorrateiros e utilitários; a ontologia budista, o surrealismo, a zoologia e a botânica.

            O surrealismo lhe conserva a indicação dos delírios – que são transtornos causados mediante uma patologia térmica, Max Ernest sintetiza o método estrutura, deixando-se consumir pelo vazio inconsciente, reúne os elementos coletivos com a febre artística, criando o arquétipo do argumento estrutural. Sendo impossível reduzir a arte, a cultura ou natureza a uma realidade simplificada. Urge unificá-las colando-as e deixando suas combinações a crédito do inconsciente. Pois o que interessa são as reciprocidades – a arte conserva a natureza em meio a sua materialidade, no entanto só ganha contornos inteligíveis através da inspiração da cultura. Agindo desta forma, Lévi-Strauss atinge o cerne, as três realidades são irredutíveis. Como ter certeza? Basta observar as operações de construção do objeto – a cultura não diverge da natureza, ambas imiscuem-se na arte. Sem essas dualidades a arte e o artista seriam meramente reprodutores, naturalistas.

            Confirmando o propósito da autora, o objeto em Lévi-Strauss é uma consagração simbológica e cognitiva. Mas, corre-se um risco:

Ao articular a biografia ao desenvolvimento da obra, por vezes a autora confere significado desmedido a acontecimentos e falas cujos contextos originais podem ser, atualmente, inacessíveis. Incorre assim num certo anacronismo por julgar ter encontrado o berço de uma teoria justamente por saber, de antemão, os caminhos por ela tomados e que esta vingou, tempos depois. (BASQUES, 2009, p.328)

            Este anacronismo é uma decorrência factual em qualquer elaboração de pesquisa, no entanto neste aspecto o perigo é tomar como pré-determinada o desenvolvimento epistêmico de uma teoria. Com efeito, é algo inevitável, pois o livro foi feito em ajuste e reajuste de um feixe de relações previamente elaboradas. Os argumentos são potentes, infelizmente sua potência é dada em forma de indução, levam o leitor a analisar a tese pelo pressuposto da autora, não há espaço para a contradição, levando a crer que há omissões subjacente onde fica dificultoso enxergar qualquer falha.[1]

            Explicitamente põem-se em destaque que as trajetórias pessoais podem ser alvos do conhecimento antropológico, sendo as vivências, os dissabores, os prazeres e mal-entendidos fontes especialmente importantes na composição do fazer teórico. O livro cumpre uma mensagem semântica tem um sentido (mesmo que particular para cada um), e uma mensagem estética (vale-se de uma escrita inteligível e fluida). Para uma iniciante na obra lévistrussiana é indispensável e principalmente em relação as suas conexões metodológicas e sensíveis. Também indicado aos que tem alguma dúvida ou mesmo apenas curiosidade – tornar-se com tempo, uma leitura comum, mas suficientemente criativa e interessante.

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Referências:

BASQUES, Messias. (Resenha) PASSETI, Dorothea Voegeli. Lévi-Strauss antropologia e arte: minúsculo – incomensurável. São Paulo: EDUSP, EDUC, 2008. 488 pp. Cadernos de Campo, São Paulo, v.? n.18. p. 327-332, 2009

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. Tradução de Rosa Freire D’aguiar. São Paulo: Companhia das letras, 1996.

LÉVI-STRAUSS, Claude; ERIBON, Didier. De perto e de longe. Tradução de Léa Mello e Julieta Leite. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

LÉVI-STRAUSS, Claude; CASTRO, Eduardo Viveiros de. Lévi-Strauss nos 90 a antropologia de cabeça para baixo. Mana, São Paulo, v. 4, n.2, p. 119-126, 1998.

PASSETI, Dorothea Voegeli. Lévi-Strauss, antropologia e arte: minúsculo – incomensurável. São Paulo: EDUSP, EDUC, 2008.

[1] Também não pode deixar ser considerado como um mérito da autora, já que esse é objetivo fundamental do texto.

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