Quantificação reflexiva: antídoto contra o positivismo e o hiperempirismo na Sociologia

            Ao apresentar a temática da pesquisa social quantitativa em uma disciplina de métodos para uma turma de doutorado em Sociologia, uma estudante perguntou: “como não ser taxado de positivista ao trabalhar com métodos quantitativos na Sociologia?” e “como evitar análises sociológicas rasas ao trabalhar com técnicas estatísticas e como lidar com o medo de ser caracterizado como superficial?”. Neste texto desenvolvo um pouco mais a resposta dada para essas perguntas e que sintetizo a partir daquilo que chamo de quantificação reflexiva, apoiando-me no que poderíamos chamar de ‘manifesto bourdieusiano’ pela reflexividade na Sociologia.

            Esse receio manifestado pela doutoranda não é incomum e deriva, ao menos, de dois contextos de âmbito acadêmico e intelectual. Ao analisar o nascimento da Sociologia como campo científico, Johan Heilbron (2022) chama atenção para o processo de luta por legitimação científica e social que este campo precisou empreender. As primeiras ciências a conquistarem autonomia e independência do pensamento teológico e teleológico foram as chamadas ‘ciências mecânicas’, especificamente a física e a astronomia, que estabeleceram as bases do que Heilbron (2022) chamou de “epistemologia científica geral”. Em seguida, conquistaram seu espaço e legitimidade as ciências biológicas, principalmente a partir do sucesso das teorias de Charles Darwin. As ciências sociais, em especial a sociologia, por estratégia de legitimação, buscou na biologia as inspirações conceituais para a conquista de sua autonomia e relativa legitimidade científica e social à época.

            Auguste Comte e Émile Durkheim são figuras centrais no processo de legitimação e institucionalização da Sociologia e suas obras refletem esse processo de adesão à um ‘ecossistema’ conceitual baseado na biologia e em sua forma orgânico-sistêmica de compreensão da realidade, neste contexto, é marcante o uso de conceitos como organismo, fisiologia e morfologia social, por exemplo. Como nitidamente observável em obras clássicas, tais como em As Regras do Método Sociológico e em O Suicídio. Essa tentativa de emular/emprestar os conceitos e métodos de outras ciências na Sociologia fez com que o processo de nascimento da Sociologia fosse marcado por aquilo que conhecemos como positivismo na Sociologia. Esse processo é asseverado por outras disputas da então nascente Sociologia ante outras formas de produção intelectuais sobre a sociedade, como aquelas do direito natural, filosofia moral e política.

            Essa análise de Heilbron ajuda a historicizar a presença do positivismo na origem da sociologia e a contextualizar a posição da Sociologia enquanto um dos muitos campos científicos que se consolidam com a modernização.

            Além disso, esse temor de voltarmos à uma sociologia positivista, que se inspira ‘cegamente’ no método das outras ciências é ainda mais intenso no contexto brasileiro. A formação sociológica no Brasil fora marcada inicialmente e fortemente por uma tradição ensaísta e orientada por produções intelectuais do pensamento social brasileiro que se tornaram referências intelectuais na primeira metade do século XX. Produções raramente preocupadas com definições metodológicas e com escassos casos de pesquisas quantitativas, abrindo um assim uma trilha intelectual aversa à quantificação. Em seguida, com a consolidação do campo sociológico e com a sua institucionalização, além da influência da antropologia e da etnografia, os métodos qualitativos ganharam relevância, tornaram-se o padrão metodológico, cercados por um ‘ar de profundidade’ crítica e teórica. Essa aversão aos métodos quantitativos chega até os dias de hoje na Sociologia e nas Ciências Sociais em geral (Soares, 2005; Neiva, 2015), com algumas exceções regionais e institucionais, e com impactos na formação de graduandos e pós-graduandos.

            Não obstante, para além dessas ponderações históricas, importa chamar atenção para o processo de amadurecimento científico da Sociologia, mundial e brasileira, baseado em dois processos ligeiramente consensuais. O primeiro, baseado na ideia de que a produção sociológica deve ser necessariamente um processo teórico-metodológico (Paugam, 2015). Essa noção, fortemente trabalhada nas disciplinas epistemológicas e metodológicas dos cursos de ciências sociais, empurra-nos efetivamente para uma compreensão equilibrada entre racionalismo e empirismo, ou entre dedução e indução e que deriva de uma reflexão epistemológica e em filosofia da ciência não exclusiva das ciências sociais.

            O segundo consenso, por mais aversão que alguns insistem em ter de Bourdieu, é a noção de reflexividade. A Sociologia ganha quando os seus operadores buscam refletir sobre o seu processo de pesquisa, quando buscam cultivar a honestidade e a transparência, quando apresentam a ‘cozinha da pesquisa’, quando questionam a influência da sua subjetividade na pesquisa e quando estão consciente da impossibilidade de neutralidade e das influências inevitáveis que perpassam a produção sociológica e seus atos de nomeação e classificação (Bourdieu, 2009, 2020, 2024). Uma posição contrária à essas atitudes reflexivas caracteriza-se como arrogância intelectual e atenta contra princípios gerais da produção científica, demarcada pelo seu processo aberto de conhecimento e que rejeita o argumento de autoridade, entre outros congêneres.

            Assim exposto, a boa produção sociológica, seja por meio de métodos qualitativos, quantitativos ou com triangulações metodológicas, será aquela que (i) tem orientação teórica clara e bem definida e (ii) consciência dos limites metodológicos da ciência, principalmente de uma ciência que tem um objeto – o fenômeno social e as relações sociais – tão próximo de seus sujeitos e tão imiscuído ao cotidiano.

            Dessa maneira, com uma consciência histórica do processo de formação da Sociologia e com consciência teórico-metodológica, é possível produzir conhecimento sociológico utilizando a linguagem matemática, utilizando técnicas estatísticas descritivas, relacionais e inferências tais como outras ciências utilizam. Ou seja, não deve escapar há quem aventura-se pela complexidade metodológica quantitativa a noção aqui defendida de quantificação reflexiva.

            Bourdieu, em uma de suas aulas no Collège de France disse aos estudantes “[…] por trás  de uma simples escolha de amostragem, encontramos uma tomada de posição científica. […] não podemos construir um espaço social com suas divisões etc. se esquecermos que essas categorias objetivas estão em jogo na própria objetividade da coisa e que podem, constantemente, ser invertidas” (Bourdieu, 2020, p. 66). Abandonar as ‘camisas de forças ideológicas’ e/ou o ‘senso comum douto’ aplica-se ao processo da quantificação, uma vez que podem circular crenças tácitas, práticas e atalhos comuns a quem domina esse universo metodológico, mas que não devem ser trilhados sem reflexão. A ‘monitoração reflexiva’ que defende Bourdieu, aplica-se perfeitamente ao caso, conduzindo-nos à um modus operandi de contínuo questionamento, à consciência sobre os limites teórico e/ou metodológicos da pesquisa, à busca por objetividade e transparência, ao respeito aos princípios éticos da pesquisa e ao questionamento dos limites que a gramática quantitativa de interpretação da realidade social pode eventualmente possuir.

            Essa postura reflexiva é a resposta para o receio de estarmos sendo ‘positivistas’ ou ‘hiperempiricistas’. Tal postura, aliada à uma produção sociológica bem fundamentada teoricamente, permitirá a conquista de um espaço há muito devido à pesquisa sociológica com métodos quantitativos, sobretudo no Brasil. Esses receios não devem impedir a produção sociológica que se faz a partir de métodos quantitativos e com grande número de casos, que tem vantagens para o estabelecimento de relações, inferências e generalizações não possíveis por meio de métodos qualitativos.

            Ambas as orientações metodológicas têm vantagens e desvantagens, cabem ou não para determinados problemas e objetos sociológicos. Desta forma, improdutivas interdições, preconceitos e/ou desvalorização à priori de quem produz sociologia com uso de métodos quantitativos não converge aos pressupostos e fundamentos da ciência, à postura crítica e reflexiva, atitudes indubitavelmente indispensáveis ao se tratar de uma ciência, sobretudo uma ciência que tem por objeto a realidade social.


Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 12. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.

BOURDIEU, Pierre. Sociologia geral: lutas de classificação. Petrópolis: Vozes, 2020. v. 1

BOURDIEU, Pierre. Retorno à reflexividade. São Paulo: UNESP, 2024.

HEILBRON, Johan. O nascimento da sociologia. São Paulo: Editora da USP, 2022.

NEIVA, Pedro. Revisitando o calcanhar de Aquiles metodológico das Ciências Sociais no Brasil. Sociologia, Problemas e Práticas, n. 79, p. 65-83, 2015. DOI: 10.7458/SPP2015794725.

PAUGAM, Serge (org.). A pesquisa sociológica. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

SOARES, Gláucio Ary Dillon. O calcanhar metodológico da ciência política no Brasil. Sociologia, Problemas e Práticas, n. 48, p. 27-52, 2005.


Como citar este texto:

SANTOS, Harlon Romariz Rabelo. Quantificação reflexiva: antídoto contra o positivismo e o hiper-empirismo na Sociologia. Blog Observare, 2025. Disponível em: https://observare.slg.br/quantificacao-reflexiva-antidoto-contra-o-positivismo-e-o-hiperempirismo-na-sociologia/. Acesso em: dia mês abreviado. ano.

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