Críticas ao conceito de sociedade

 

por Alef Lima

            Um ponto nevrálgico das rediscussões sobre os conceitos é o campo de teorização amplo que por vezes eles sustentam, definindo um filão analítico e um espaço político. Assim, por exemplo, a pergunta: o conceito de sociedade estaria teoricamente obsoleto?[1] Pode ser refratária ao modo de revisar panoramas explicativos que dentro de uma dimensão historicamente situada encontram-se congelados em aspectos múltiplos; epistemológicos, metodológicos; descritivos e compreensivos, e como funcionalidades teóricas naturalizadas expandem e contraem múltiplas relações que quando não descortinadas limitam o próprio campo analítico, ou a disciplina que se arvora de seus pressupostos.

            Considerando um viés de revisão crítico aos modelos explicativos (teorias, categorias, escopos metodológicos, epistemologias); e o diálogo sobre o conceito de sociedade, referenciado (nesse momento a partir de sessão inicial de textos vistos na disciplina) à tradição antropológica britânica, pode-se resumir algumas coordenadas importantes. Em primeiro lugar, os estudos de parentesco que permitem a urdidura comum a antropologia britânica, bem como, os diferentes modos de esquematizar as sociedades não-ocidentais, em relação a um princípio de totalidade. Sendo, justamente esse aspecto, que entra em pauta quanto mencionamos a categoria sociedade. No segundo plano, precisa-se compreender o corte geracional que é operado dentro daquela “comunidade acadêmica”, aqui os alunos de renome como Marilyn Strathern (2014) e Fredrik Barth (2000) fazem ressoar os debates tributários de seus mestres, entre eles, Meyer Fortes (1906-1983) e Edmund Leach (1910-1989).

            Mais do que um corte (no seu sentido operacional) a revisão conceitual perpetrada pelos novos ocupantes da cena antropológica britânica, produz uma exegese teórico-etnográfica (remetida a duas regiões etnográficas com potenciais analíticos distintos: a Melanésia, e as sociedades africanas), sobre aspectos displicentes (as unidades de análise discreta, e os critérios da comparabilidade), que seus antecessores, – e fundadores, não levaram a cabo. Incluindo, Radcliffe-Brown, e a Escola de Manchester. É digno de nota o transbordamento que o revival discursivo ensejado por esses “herdeiros” se expande por direções imprevistas, como o caso do impacto que suas considerações tiveram nos novos modos de pensar as ideias de sociedade dessubstancializadas de apriorismos empíricos ou conceituais. Fazendo incidir novas concepções do que é antropologia e do fazer etnográfico.

            Para exemplificar, podemos iniciar uma análise mais acurada, do que entra em jogo quando passamos a questionar a sociedade, enquanto atributo monolítico de um sistema social empiricamente concebido; se consideramos que a “imagem de sociedade primitiva vigente na fase clássica da antropologia social internalizou um contraste que havia sido usado anteriormente para opor globalmente sociedades, ou concepções globais de sociedade” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 311). No texto, Societies of nature and the nature of society, o etnólogo Philippe Descola, expõe sua crítica as modelizações etnográficas sintéticas que reverberam nas tradições teóricas sobre o que são ou não as sociedades. Partido de alguns dos pressupostos do estruturalismo lévi-straussiano, Descola (1992) sugere que o fazer etnográfico não pode constituir de antemão aquilo que é uma sociedade. E sim, remontar os repertórios mentais que o ensejam, dando como exemplo os contextos ecológicos eclodidos enquanto pontos de apoio para diferentes povos pensarem-se cosmologicamente vinculados com a natureza.

            Em certa medida, Descola furta-se de pensar empiricamente o lugar “comum” de relações sociais que nomeamos como sociedade. Sua postura visa erigir um novo escopo para a tarefa etnográfica, abrindo mão de totalidades interpretativas e estratégicas individuais, – o etnógrafo recupera dimensão sublimada da análise antropológica, a saber, os invariantes mentais, postos, no estruturalismo na forma de pares antinômicos e operacionais. A perspectiva de Barth (2000) conduz outro aporte metodológico, já que ele se preocupa em ocupar metodologicamente as concepções empíricas surgidas nos diversos campos etnográficos. Barth como ex-aluno de Leach, tenciona as críticas que seu professor traçava as monografias britânicas de sua época. Com atenção redobrada para o método comparativo a partir de critérios exógenos, e as modelizações analíticas retiradas desse princípio. O autor herda esses questionamentos, sobrelevando outros: a ideia de equilíbrio dos sistemas sociais, as totalidades fechadas, a in(coincidência) entre os limites cultura/sociedade (PEIRANO, 2014).

            No artigo, Por um maior naturalismo na conceptualização das sociedades, Fredrik Barth (2000), busca refundar o modo como teorizamos a sociedade. Para tanto, vai derrubando pressupostos teóricos cimentados enquanto fontes epistemológicas – na derrubada, ele areja as reflexões e os músculos de análise comparativa parecem voltar a se articular no antropológico, isso, se seguimos sua perspectiva. Sua crítica segue duas perguntas: o que é a sociedade, unidade descritiva e analítica, territorialmente delimitada cujas funções e espaços são compartimentados por uma coerência historicamente constituída? Ou, elas são incoerentemente abertas, e os sujeitos trafegam, recriam e fazem durar um percurso de relações, conexões e eventos que temporalmente sobrepostos, podem, parecem razoavelmente interligados?

            Tentando livrar a expertise antropológica de algumas noções simplistas, o autor enumera novas proposições, sobretudo, negativas, daquilo que é a infraestrutura de relações sociais, nomeada ‘sociedade’. Tais proposições são: I) é preciso reconhecer a multiplicidade de atores e agência, a sociedade não é irredutível a um agregado de relações sociais; II) não é um conjunto de instituições, pois não se pode limitar a vida social nas suas formas normativas, sempre precárias; III) a sociedade não é um todo composto de partes, afinal, isso significaria aprisionar a complexidade analítica dentro da organização e morfologias sociais; IV) a unicidade da sociedade-mundo é inexistente; V) as sociedades não podem ser abstraídas de seu contexto material, na medida em que se corre o risco de asfixiar e desagregar aspectos epistemológicos importantes. Por último, V) que necessitamos dessubstancializar a categoria de seu poder homogeneizante na definição do social.

            Tendo em mãos essas coordenadas, ele propõe: “[…] sociedades são sistemas desordenados, caracterizados pela ausência de fechamento” (BARTH, 2000, p.172). Suas indicações vão mais além, instituindo quatros pontos de apoio para analise: 1) o social não pode ser subsumido nas repetições; 2) existem incongruências duráveis entre os atores; 3) temos que se referenciar pelas consequências objetivas entre os eventos e suas conexões, 4) considerando-os em sua temporalidade.  Desse modo, o autor busca refletir sobre a estrutura da ação social, e estabelece o esboço de uma antropologia voltada ao entendimento dos atos e eventos atribuídos em um looping recursivo dos atores sociais[2]. Volta-se a questão do método comparativo, agora, internamente concebido e inclinado no plano exploratório dos sistemas sociais, visando dentre outras coisas, problematizar os graus de convergência social.  Barth (2000) entende que suas proposições tem validade na medida em que não trivializam dos resultados da análise e implicam ao etnógrafo uma maneira diferente de lidar com os dados, na sobreposição de posicionamentos dos sujeitos.

            Marylin Strathern também incorpora no seu corpus etnográfico uma crítica afiada as imagens de totalidade que se acham inscritas na antropologia britânica, especialmente, a convencionalidade dos usos das categorias de parentesco e afiliação, enquanto detentoras de uma cola de relações que une as partes e os todos.  Totalidade e individualidade, partes seccionadas, espectros homogêneos de relações, conceitos englobantes, e outros esquemas analíticos não passam despercebidos por Strathern (2014) e seus trabalhos de campo. A força argumentativa da autora reside no manejo arrojado dos dados etnográficos, fazendo com que sua teorização seja afiada. É na angulação de seus dados sobre parentesco na sociedade Melanésia, que ela, no texto Partes e Todos: refigurando relações[3] reexamina o nascimento das conceptualizações de sociedade vinculado às maneiras de se lidar com os sistemas de parentesco; grupos corporados e indivíduos como linhagens.

            Para Strathern (2014) o jogo entre o todo e suas partes ou os todos e sua parte, é um artifício retórico do modo de compreensão “parcial” das totalidades engendradas como realidades, mas que são, tão somente, modelos analíticos. No referido artigo, a autora demonstra como os melanésios desconstroem suas totalidades sub-repticiamente, uma desconstrução dos constructos da realidade social (não algo pós-moderno). O indivíduo melanésio[4], diferentemente dos euro-americanos (nomeação específica da autora aos ocidentais), expõe-se cruamente o inacabamento dos sujeitos. Pergunta-se, o que é uma pessoa sem um grupo, por qual dimensão de totalidade opera a socialização das pessoas? A pessoa é um todo ou uma parte de sua própria socialização? A estratégia teórica de Strathern insiste; o substrato da análise etnográfica é compreender as perspectivas de reconstrução (lembra-me Barth nesse ponto) das categorias analíticas dos próprios atores. Assim, os constructos de totalidade dos antropólogos só são passíveis de empreender a comparação quando se vinculam a mudança constante de perspectiva. O texto de Strathern segue de alguma maneira esse estratagema, mostrando-o a partir do que os próprios antropólogos fazem com as “suposições” nativas.

            Até o momento consegue-se vislumbrar que as críticas ao conceito de sociedade restringem-se aos panoramas analítico-contextuais, que a fecham como uma organicidade transcendente [5] ou totalidade funcionalmente interligada e imaginada. Portanto, os autores nos encaminham questões metodológicas de grande impacto na maneira como organizamos os objetos de conhecimento, sem, no entanto, conferir um passo para além do escopo metodológico, já que é possível que as matérias de compostagem sobre aquilo que designamos como social ainda não foram completamente questionadas.

            A antropologia ecológica e o grau fenomenológico da abordagem de Tim Ingold conferem ao social as propriedades de um fluxo imersivo que toma a transformação interativa entre, coisas e animais, homens, sociedade e cultura, na forma de um emaranhado de linhas. O social deixa de ser pensado em termos antropocêntricos, e passa, a partir dessa perspectiva, a emergir no campo imanente de relações (tributárias e interacionais). O social como coisa viva insere-se no interlúdio de vários interlocutores, principalmente filósofos: Heiddeger; Merleau-Ponty; Gilles Deleuze, Félix Guattari e Spinoza. Para Ingold (2015) as partições ontológicas enquanto invólucros das experiências dos sujeitos com o mundo fez-se que os objetos e sujeitos fossem postos como pares dissonantes e com habilidades diferentes: o primeiro, passivo e abrasivo a descoberta. O segundo, ativo, abrasador do descobrimento.  Na crítica ao paradigma semiótico que predominou como repertório conceitual na ciência antropológica, Ingold reconsidera a possibilidade de um mais além da linguagem na maneira de (fazer-sentir) o conhecimento vivido da antropologia.

            A matéria, com propriedades variadas, a partir de Ingold, pelo qual os antropólogos desenvolvem suas narrativas é justamente o atravessamento das linhas que compõe a habitação ontológica dos mundos, em suas mais inconstantes alteridades.  O pesquisador não é exterior ou anterior ao o objeto, ele imiscui-se nos enlaçamentos de linhas – a etnografia não está fora da vida. Uma etnografia que vai um passo adiante do simbolismo da vida social. Nessa atitude vivencial – os substratos analíticos do antropólogo despregam-se de estruturas dadas de antemão, ações intencionalmente calculadas, ou negociações pragmáticas. Ingold (2016) advoga por uma antropologia enquanto educação, uma etnografia como aprendizagem. O escopo analítico da antropologia ecológica do autor desdobra-se na forma de um movimento inerente a atividade antropológica: refletimos com as pessoas, no compartilhamento experiencial no mundo.  A matéria de uma reflexão etnográfica é, sobretudo, a constituição relacional dos seres, não suas representações. O social só é possível como propriedade do real.

            Annemarie Mol e John Law são dois autores interessantes para se pensar o social não mais situado como uma qualidade inerente de repetição ou interação, mas no limite de uma topografia de relações, compreender o social produzindo e sendo produzido enquanto similaridade e diferença. Mol e Law (1994) vêm de uma discussão dos estudos da ciência, e lidam, com alguma diferenciação, juntos, no espectro da Teoria Ator-Rede de Bruno Latour, no entanto, sua preocupação é entender o social performado cientificamente – busca-se fazer uma reflexão detalhada dessas topografias. O social não existe como espaço único, mas desempenham um papel recursivo e com modos heterogêneos topograficamente falando – topografia é aqui uma metáfora hierárquica e remete a dimensão cartográfica da analise etnográfica.

            O exemplo que esses autores trazem está exposto no artigo Regions, networks and fluids: anaemia and social topology. O tema da anemia é flexionado em três diferentes modelizações topográficas: regiões, redes e fluídos, ou melhor, espaços fluídos.  Eles examinam como material etnográfico a maneira pela qual os médicos dos países tropicais manejam a anemia como doença; utilizando a comparação mediata do tratamento da anemia nos países baixos, em especial Holanda. Com exames, diagnósticos, redes laboratoriais e técnicas terapêuticas são tratadas como um modus operandi pela qual a anemia torna-se problemática e é arranjada em posições sociais. A região é quando os objetos estão agrupados conjuntamente em limites desenhados; a rede, por outro lado é a distância funcional entre os elementos que se impõe por uma variedade relacional, e o espaço fluído é a instabilidade das ligações entre os lugares, conjuntos e objetos: é a espacialidade produtora de diferenças sociais. O exemplo da anemia sublinha esse papel, ela verifica-se como um problema concreto que é designado por diferentes proposições.

            O Quênia é uma região com alta e severa incidência de anemia, comenta os autores, mais a Holanda têm baixo índice de casos, cerca de 3%. Assim a África é tomada na forma de uma região delimitada de casos entre seus países; e os países baixos, outra. A similaridade de casos e tratamentos delimita fronteiras; mas, os métodos laboratoriais (quantitativos) são os mesmos – é por isso que pode existir um diálogo entre os clínicos dessas regiões. A multiplicidade de performances em cada um desses enquadramentos é produzida por aspectos heterogêneos de distinção e semelhança. Tornando possível que os diagnósticos sejam os mesmos, um panorama comum, mas, com elementos de aferição diagnóstica diferentes. Ocorre que as maneiras mensurar a hemoglobina no fluxo sanguíneo demanda que os procedimentos gerais tenham que obedecer a regras locais, variáveis entre si. Então, como designar a validez dos procedimentos? Ou o grau de convergência entre os diagnósticos e regiões de incidência? É possível afirmar uma “pureza” estável da anemia, por fora dos aparatos laboratoriais que produzem suas diferenças entre países e pessoas? A fluidez das topografias sociais advogam as misturam que operam performado realidades empíricas em estatutos espaciais manipuláveis.

            Chegamos a uma camada de espelhamento e reflexão em que o social é desfeito em uma série de balanços conceituais, novas teorias, críticas e muito mais. No entanto, ainda não chegamos a catalogar outras posições analíticas que nos propõem, tão claramente, outras medidas para se chegar a definir categoricamente o social nas consequências enquanto matéria-prima de vários campos de pesquisa. Reconhecemos: a totalidade foi um artifício retórico com falhas visíveis ao método comparativo em antropologia. As sociedades não existem per si como entidades contínuas, e tão pouco, o social é apenas passivo ao analista, já que em suas propriedades ele altera o estatuto da realidade. Mas, afinal, de que social falamos? Trago para o plano da análise a Teoria Ator-rede (em inglês, Actor Network Theory – ANT) de Latour e suas derivações metodológicas para empreender um mais um adendo à reflexão produzida nestas linhas.

            Na obra, Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede, Bruno Latour (2012) introduz um grande resumo de sua crítica teórica e retórica aos principais procedimentos intuitivos das ciências sociais, historicamente balizados no social como uma realidade dada. As críticas repelem as definições estritas do social: coação, coerção, continuidade, grupo, estrutura, sociedade, contexto. O social é controverso, aberto. A proposta é examinar, por dentro, a caixa-preta do discurso sociológico e antropológico sobre o modo que esse “agregado de forças” produz sua duração, se desfaz, conectam-se e emergem instavelmente. Assim, o social em Latour é associação, não existem grupos, mas, formação de grupos. O analista social rastreia junto com os atores os traços conectivos dessas forças, aferindo as dimensões distributivas da agência. Não mais localizada em sua uma intencionalidade estrutural ou individual e sim nos efeitos distributivos de uma rede que forma-se indefinidamente entre humanos e não-humanos.

            O autor postula que os principais pressupostos das ciências do social se constituíram enformando sua matéria analítica em conceitos monolíticos, e pouco usuais. Em seu ponto de vista as cinco grandes intuições sociológicas estão de alguma maneira, equivocadas sobre: 1) a natureza dos grupos; 2) da ação; 3) do objeto; dos 4) fatos e 5) os tipos de estudos das ciências sociais. A Teoria do Ator-Rede seria, nas formas metodológicas e descritivas, o ponto de clivagem encontrado por Latour para compreender o social em formação: formando-se em quadros mutáveis e transformativos. Cabendo ao analista social rastrear e não estabilizar retroativamente, com categorias homogêneas, a diversidade de conexões constitutivas de fluxos da rede em que o social é propriedade formativa. A crítica de Latour é claro, pelo menos nesse livro: não existe, aprioristicamente, uma unidade certa de análise e as fronteiras entre um grupo e outro, uma pessoa e outra, uma rede e outra são controversas, e por isso deixam traços.

            Rastreando os traços das conexões, como um cartógrafo que desenha trilhas, cada vez mais relacionais e heterogêneas. A teorização proposta também se arvora no debate sobre os mecanismos de linguagem empregados pelos ‘sociólogos do social’, o nível epistemológico é articulado no campo da ligadura das forças sociais, e nos diferentes posicionamentos metodológicos. Latour faz etnografia da ciência, dos laboratórios; das “descobertas científicas”, na posição de seus materiais etnográficos e nas consequências teóricas que esses trazem, ele propõe estender o seu arcabouço ao plano da teoria social mais ampla. Com essa perspectiva ele retoma algumas das considerações teóricas já presentes em Gabriel Tarde como a incomensurabilidade das diferenças e suas ressonâncias infinitesimais. A questão do social em Latour emerge quando os enlaçamentos que estamos enredados começam a se desfazer: o social é, em tese, aquilo que vem a posteriori de uma associação para outra.

            O caráter movediço do social é o que torna sua substancialização um movimento impossível e aterrador para análise. Para o autor, as possibilidades científicas das ciências sociais estão postas em outras tarefas: desdobrar o social nas associações; fazer estabilização ondulatória do social (não esquecendo que é dos atores a responsabilidade geral de estabilizar suas controvérsias); e a compreensão progressiva da dimensão de composição dos rastros sociais[6]. Essas novas lições sucessivas e concatenadas baseiam o entendimento laturiano de que não se pode confundir a realidade empírica com o modelo de investigação. Neste ponto ele verte seu criticismo a uma sociologia crítica, afirmando que a Teoria Ator-Rede pode não fala de política, mas, fala politicamente de seus objetos.

            Objetivando não reificar apressadamente matrizes retóricas, Strathern (1996) e Sansi (2013) elaboram as camadas metodológicas e decisões teóricas que, a antropologia, em particular, pode abstrair das consequências de Latour. Em publicação ao The Journal of the Royal Anthropological Institute, com o título de Cutting the Network (Cortando a Rede), Strathern faz duas torções analíticas na Teoria Ator-Rede: primeiro, o fato de que a rede não pode se estender infinitamente no campo de uma análise etnográfica; e segundo, quando as próprias categorias nativas cortam a rede. Como no caso da noção de posse nas sociedades melanésias. Mesmo sem falar explicitamente a autora advoga que os efeitos do antropólogo atuam mais do que espera Latour em sua teoria.

            Em outro âmbito de problematização, Sansi (2013), compreende que o escopo teórico laturiano que interessa a ciência antropológica é o Latour anterior às discussões de simetria e hibridismo. Centrando-se na categoria de evento o autor demonstra como essa noção já permite uma dessubstancialização nos cenários conceituais da antropologia. Em The Latour event: history, symmetry and diplomacy, Latour é o próprio evento na historicidade daquele campo. Os eventos são actantes[7], enquanto modos de existência de relações transversais entre fenômenos diversos, assim são coextensivos. Para Sansi, muito do que a teoria laturiana postula estavam potencialmente vinculados ao conhecimento antropológico de longa datada. Com alguma variação, o evento recupera uma totalidade provisória e abre-se operacionalmente a análise. O social posto nesses termos tem propriedades inconstantes. O que os analistas devem fazer é submergir mais fortemente nos efeitos concretos da vida interacional do mundo.

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REFERÊNCIAS

BARTH, Fredrik. Por um maior naturalismo na conceptualização das sociedades. In: _______. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Tradução de Jonh Cunha Comerford. Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria, 2000, p. 167-186.

DESCOLA, Philipe. Societies of nature and the nature of society. In: KUPER, Adam. Conceptualizing society. Londres: Routledge, 1992, p.107-126.

INGOLD, Tim. Estar vivo. Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015.

LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Salvador: Edufba/ Bauru: Edusc, 2012.

MOL, Annemarie; LAW, John. Regions, networks and fluids: anaemia and social topology. Social Studies of Science, v. 24, n. 4, 1994, p. 641-671.

PEIRANO, Mariza. Edmund Leach. In: ROCHA, Everardo; FRID, Marina (Org.). Os antropólogos. Petrópolis: PUC/Vozes, 2014.

SANSI, Roger. The Latour event: history, symmetry and diplomacy. Social Anthropology, v. 21, p.448–461, 2013.

STRATHERN, Marilyn. Cutting the Network. The Journal of the Royal Anthropological Institute, v. 2, n. 3, 1996, 517-535.

_________________. O efeito etnográfico e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O conceito de sociedade em antropologia. In: _______. A inconstância da alma selvagem: e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2002, p.297-316.

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NOTAS

[1] Essa pergunta, formulada de maneira diferente, foi tema de um fórum de discussão de um Grupo de Debates de Teoria Antropológica, no ano de 1989. No debate Marylin Strathern apresentou suas considerações afirmando que o potencial heurístico do conceito de sociedade, se esvaiu, devendo ser problematizado para fins de uma ciência antropológica contemporânea. Mais informações, Cf. STRATHERN, Marylin. O conceito de sociedade está teoricamente obsoleto? In: __________. O efeito etnográfico e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 231-239.

[2] São dignas de nota as semelhanças da abordagem de Barth (2000) com a teoria da estruturação de Giddens, o paralelo pode ser feito a partir das noções de atos e eventos (encaminham-se como práticas que estruturam modos de ação e sentir), e a reflexividade recursiva dos atores que expõe a semelhança de uma compreensão dos sistemas sociais enquanto formas abertas e desordenadas porque seus ocupantes, recorrem, reelaboram seus atos e significados. Mas, é importante referenciar o quadro analítico do qual Giddens expõe à dimensão de sua teoria social, voltada às sociedades “grande porte”, europeias. Já Fredrik Barth usa os dados etnográficos e o método comparativo para referenciar análises internas aos seus pressupostos. A diferença, a meu ver, é de método e de campo de teorização.

[3] A problemática central do artigo também se dirigiu aos princípios holísticos em antropologia; assim, o problema da continuidade e coesão social faz cingir novos questionamentos. Um dos exemplos que autora traz é o desaparecimento da sociedade Garia que no contexto melanésio estabelecia o parentesco por amizade e não laços cognáticos.

[4] O importante do novo questionamento de Strathern também reside na compreensão do indivíduo, repensado como um (in)divíduo por considerar o inacabamento compósito de relações sociais que formam-se nebulosamente. O “divíduo” é uma porção social divida e redividida no escopo relacional das vivências (ex: linhagem e parentesco). O ponto de apoio da autora é o modo como os melanésios desconstroem a pressuposição de maturidade individual, comum aos euro-americanos.

[5] Não se sabe, pelo menos nas leituras manejadas aqui, o quantum das teorizações durkheiminianas embasou ou não as proposições teóricas examinadas.

[6] Um dos interlocutores que Latour estabelece a sua teoria é a sociologia crítica de Pierre Bourdieu, considerando-o como um sociólogo do social, cuja criticidade de sua teoria crítica em sua sociologia emancipadora teria factualmente deixado de lado a dimensão associativa dos atores. Luc Boltanski também é um dos interlocutores do autor quando mencionamos a categoria de controvérsias, lembrando que Boltanski foi aluno de Bourdieu, participando de sua equipe de pesquisa.

[7] Nomeação dada por Latour aos atores humanos e não-humanos que produzem efeitos ao mesmo tempo que são eles os próprios efeitos.

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COMO CITAR ESTE TEXTO

LIMA, Alef de Oliveira. Críticas ao conceito de sociedade. [S.l]: Blog Observare, 2017. Disponível em: < https://observare.slg.br/2017/05/28/criticas-ao-conceito-de-sociedade >. Acesso em: dia mês abreviado. ano.

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