A objetividade do conhecimento nas Ciências Sociais: o caminho weberiano

           Ao apresentar os interesses editoriais e acadêmicos da revista Arquivo para a Ciência Social e Política Social, Weber lança uma problemática: “Em que sentido há ‘verdades objetivamente válidas’ na área das ciências sociais que se ocupam da vida ‘cultural’?” (WEBER, 1999a, p. 108). Aliada a essa questão e relacionada aos interesses da revista, Weber também tenta circular as linhas e limites definidores daquilo que seria juízo de valor e posição política, e do que ele entende por texto científico, preocupado como uma “divisão de princípios entre o conhecimento daquilo ‘que é’ e daquilo que ‘deve ser’” (WEBER, 1999a, p. 108).

            Para essa pergunta provocada por Max Weber e ainda válida, uma resposta prudente: não há solução factual, direta. Ao mesmo tempo em que não pode ser definitivamente respondida – pelo menos até hoje – também não pode ser completamente evitada e Weber então propõem um possível caminho. Caminho, teórico-metodológico, esse que aqui será esboçado.

            Antes, sobretudo, Weber, logo no início do texto A “objetividade” do conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política (1904) deixa bem claro que não se trata de menosprezar os juízos de valor, de invalidar as posições políticas, nem de tentar bloquear uma espécie de opinião esclarecida ou fundamentada empiricamente. Para ele, tomar decisões e posições a partir da realidade conhecida é algo possível, mas tomadas em nível pessoal, uma vez que “Uma ciência não pode ensinar a ninguém o que deve fazer […]” (WEBER, 1999a, p. 111). A questão gira em torno, então, de que é importante diferenciar os dois campos de conhecimento. De que se deve cultivar a capacidade de diferenciar julgamento de conhecimento científico.  Essa inclusive é a proposta sustentada por Weber para a indicação de professores universitários. No texto O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociais e econômicas (1917) ele acredita ser “válido distinguir entre, por um lado, […] afirmações puramente empíricas e, por outro lado, avaliações, práticas, éticas ou filosóficas […]” (WEBER, 1999b, 362). Aqui se torna importante reconhecer que o sentido se dá a partir do indivíduo e não da ‘ciência’ e que portanto, a ciência social, irá apenas recolher, reunir e ordenar os sentidos da ‘vida cultural’, sentidos esses produzidos pelos indivíduos. Dentro dessa noção, a ciência, por conseguinte, seria estéril na tarefa de ‘dar sentido’.

            A partir de então, Weber investe na tentativa de esboçar uma abordagem teórico-metodológica programática da ciência social. Tentativa essa que vai caminhar no sentido de: (I) reconhecer que a ciência social produz apenas uma ordenação conceitual dos dados empíricos, e que (II) somente por meio da formulação dos tipos ideais, da construção de abstrações que unem sentidos reais, é que se poderá ter objetividade. Essa ‘objetividade’, não obstante, precisa ser entendida não como uma característica do conhecimento que o tornaria real. Para Weber, as abstrações não podem ser realidade, nem se confundir com a realidade, uma vez que existe “o perigo iminente de se confundir o tipo ideal e a realidade” (WEBER, 1999a, 146). Assim, ‘objetividade’ só se faz quando em oposição ao juízo de valor e não pode ser confundido com correspondência com o real. Conhecimento objetivo então, não seria conhecimento correspondente ao real, mas conhecimento que se pretende isentar-se de julgamentos. Investir em conhecimento objetivo, investir em uma ciência social não seria a busca por um conhecimento tal-qual-o-real, mas a busca por um tipo de conhecimento programaticamente neutro. Aqui, portanto, há um sentido da objetividade para o campo da produção científica, um sentido dado por quem quer demarcar o campo científico.

            A objetividade do conhecimento nas ciências como um todo, e nas ciências sociais, seria o resultado do que se espera da ciência, um conhecimento isento, não fechado, não dogmático e aberto a novas variáveis, aberto a novos conteúdos. A objetividade garantiria antes de tudo, que um conhecimento esteja aberto à constante intervenções e novidades empíricas, aberto a novas evidências. O fato de não possuir um valor a priori, garantiria essa abertura ao conhecimento. Não é surpresa que Karl Popper tenha sido aluno de Weber, e talvez se subestime a influência que o filósofo do realismo crítico tenha recebido de seu professor, dentre outros. Assim, a objetividade é possível porque é necessária, ela é inerente ao conhecimento científico e sem ela não há possibilidade de conhecimento científico. No caso das ciências sociais, ela se torna possível a partir do momento em que se entende que a vida cultural é produzida, e que existem sentidos passíveis de compreensão (WEBER, 1997) e que tais sentidos podem ser ordenados conceitualmente.

            No entanto, mais especificamente e de maneira prática, sobre a objetividade nas ciências sociais Weber vai indicar uma união entre economia e ciências da cultura. A proposta que ele tem para a revista se confunde com o que considera ciência social: “[…] o campo de trabalho característico da nossa revista é o da pesquisa científica do significado cultural geral da estrutura socioeconômica da vida social humana, e das suas formas históricas de organização.” (WEBER, 1999a, 121). No entanto, diferentemente de Marx, que sustenta um primado da matéria, Weber percebe que uma análise econômica apenas, é uma análise parcial da vida cultural e que o “elemento econômico” é um “elemento específico dos fenômenos culturais [vida cultural]” (WEBER, 1999a, p. 119)[1]. A partir desse ponto faz-se necessário alguns questionamentos: O que seria cultura ou vida cultural para Weber? A objetividade nas ciências sociais estaria relacionada a capacidade de relacionar as configurações culturais e as configurações das necessidades materiais?

            Um possível caminho weberiano, aqui percebido, seria o de entender as questões econômicas sob o primado da cultura. Compreendo a dinâmica social no que tange a questão material a partir da formação de grupos de interesses materiais e meios de poder. Weber (1999a, 119, grifo nosso) afirma:

Por outro lado, o conjunto de todos os fenômenos e condições de existência de uma cultura historicamente dada influi na configuração de existência de uma cultura historicamente dada, na configuração das necessidades materiais, nos modos de satisfazê-las, na formação dos grupos de interesses materiais, na natureza dos seus meios de poder, e por essa via, na natureza do curso do “desenvolvimento econômico”, tornando-se assim, “economicamente relevantes”.

            A preocupação em Weber é aproximar ainda mais a análise econômica da realidade social que cria e movimenta conteúdos, aproximar e dar corpo às práticas. Nesse sentido, Weber critica a “maneira imprecisa” do materialismo que afirma a existências de movimentos e determinantes, sem se preocupar com o processo, em como isso poderia se manifestar no fazer cotidiano e histórico dos indivíduos. Não existe relação causa-efeito e nem denominador comum da explicação da realidade, que é histórica.

            Weber busca construir uma ciência social livre de imputação de causas e de que existiria uma irrealidade de interpretação ao se seguir um caminho de determinantes e de causa-efeito. Para ele “Não existe nenhuma análise científica totalmente ‘objetivada’ da vida cultural, ou dos ‘fenômenos culturais’” (WEBER, 1999a, 124). A possibilidade, portanto, de um conhecimento objetivado nas ciências sociais fica condicionada a dois princípios gerais. Primeiro (I) a do reconhecimento de que o homem é capaz apenas de conhecimentos objetivos fragmentados e (II) de que as repetições regulares, leis e determinadas causas possuem um papel limitado no isolamento desses fragmentos, devendo o cientista social se contentar com um sistema de proposições de onde se poderia deduzir a realidade. Não interessa – pois seria infrutífero – a busca por uma mecânica dos fatos, “o que nos interessa é o aspecto qualitativo dos fatos” (WEBER, 1999a, 126). Weber parte de um reconhecimento da complexidade e do caráter situacional e configuracional da realidade social e histórica. Objetividade nas ciências sociais é portanto, uma tentativa de conhecimento ordenado da realidade, que se intenta neutra de julgamentos, que se satisfaz com fragmentos da realidade e que está circunstanciada pelo caráter randômico da realidade social, evitando assim, a noção de correspondência com o real e se mantendo como um conhecimento não dogmático, de caráter aberto e possível de falseamento.

[1] Algumas traduções em inglês traduzem ‘vida cultural’, ao invés de ‘fenômenos culturais’.

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REFERÊNCIAS

WEBER, Max. Conceitos sociológicos fundamentais. Lisboa: Edições 70, 1997.

WEBER, Max. A objetividade do conhecimento na ciência social e na ciência política. In: WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais. 3 ed. São Paulo: Cortez, 1999a.

WEBER, Max. O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociais e econômicas. In: WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais. 3 ed. São Paulo: Cortez, 1999b.

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COMO CITAR ESTE TEXTO

SANTOS, Harlon. A objetividade do conhecimento nas Ciências Sociais: o caminho weberiano. Fortaleza, CE: 2015. Blog AdObservare. Disponível em: <http://wp.me/pFciT-8N >. Acesso em: dia mês abreviado. ano.

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