Sociologia e a Psicanálise: Onde está o impossível? Questões epistêmicas de uma trama interdisciplinar.

Resenha por Alef Lima

LIMA, Denise Maria de Oliveira. Diálogo entre a Sociologia e a Psicanálise: o indivíduo e o sujeito. Salvador: EDUFBA, 2012.

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      Uma nuvem obscura povoa as relações entre a psicanálise e as ciências sociais, não por acaso existe uma “incapacidade coletiva” em acreditar ser possível o gesto interdisciplinar entre duas ciências que desenvolveram seus argumentos em vias tão densamente diferentes. Entretanto, é considerável o esforço de inúmeros sociólogos e cientistas sociais no intuito de realçar um conjunto nebuloso de conversas, sussurros, ditos e não-ditos que subjazem as implicadas dimensões sociais e psíquicas do homem ao longo da história. A respeito dessa perspectiva, o livro da psicanalista Denise Maria de Oliveira Lima, nos convence daquilo que a “incapacidade coletiva” tinha apenas como dogma. A sociologia e a psicanálise pensam-se distintas e consequentemente, distintas elas são.

      O livro é o resultado da tese de doutorado da autora, que tem como temática a discussão epistemológica entre as duas disciplinas, a partir da confrontação dos condicionamentos sociais do indivíduo e a sobredeterminação do sujeito do Inconsciente. A meta de Lima (2012) é reforçar uma postura crítica-emancipadora para compreender os processos de sofrimento social e psíquico que atingem esse abstrato indeterminado indivíduo-sujeito. Considerando essas noções como pontos necessários para se atingir convergências entre as ciências, e munida dos argumentos metodológicos do chamado pensamento complexo. A autora percorre obras de reconhecidos autores da sociologia que se aventuram em pensar o social e o psíquico, entre eles constam (na lista brasileira): Renato Mezan, e (com muita ênfase) Sérgio Paulo Rouanet. Além de considerar os conceitos de habitus em Norbert Elias e Pierre Bourdieu enquanto elementos dialogais, formas limítrofes quase ideais entre as inscrições “sociológicas” e a realidade psíquica.

      Denise Lima é psicanalista logo suas explicitações das teorizações freudianas não deixam dúvidas desse aspecto, o domínio dos conceitos psicanalíticos é profundo e densamente desconcertante para aqueles não familiarizados. Mas, a tese é claramente sociológica, pelo fato da autora usar a teoria dos campos de Bourdieu para estruturar sua compreensão sobre a gênese histórico-social da psicanálise. Feito a descrição de sua proposta teórica, ela parte para os seus posicionamentos metodológicos, alguns ancorados na perspectiva relacional e nos marcos de uma epistemologia freudiana, onde o objeto de pesquisa é “algo construído, resultado de uma síntese de representações” (p.27).

      Este objeto é algo unitário em um fluxo caótico de relações entre percepções, portanto, seu valor (científico) só é significativo dentro de um conjunto de elos que resplandecem a problemática proposta. Ou seja, é por meio de uma trama conceitual que podemos compreender a linguagem interdisciplinar e complexamente orientada subscrita entre o pensamento sociológico e as contribuições psicanalíticas. Por isso a questão metodológica segue pela linha hermenêutica traçada pela circularidade das interpretações. Como exemplo, ela oferece o conceito de sobredeterminação do sujeito, onde o Eu enquanto instância psíquica é sobrepujada pelas forças do inconsciente e suas formações reativas (os sintomas), além do SuperEu (a internalização da norma parental, entendida como ordem simbólica da cultura). Essa sobredeterminação é o esforço de intermediar essas energias e determinações que o Eu enfrenta no registro do vivido. A intermediação é feita em redes de coalizações, deslocamentos e repressões que constituem um intenso movimento.

      Paralelamente a sobredeterminação, ela apresenta as questões concernentes a possível dimensão sociológica deste sujeito. Ao qual se relaciona aos condicionamentos impostos aos indivíduos dentro de seu cotidiano, segundo Lima (2012) existe nesse aspecto uma correspondência aliada a uma percepção comum entre a Sociologia e a Psicanálise, – ambas as disciplinas lidam com o implícito causal. A primeira vislumbra na compreensão da prática dos agentes achar os fragmentos residuais de uma estrutura subjacente (pelo menos algumas das teorias sociológicas mais comuns), que os faz agir como agem. Tentando escavar na tessitura das relações sociais e nas disputas de poder, a sociogênese do sofrimento social. Já a segunda opera pela linguagem dos sintomas, pretendendo acessar as suas lógicas de funcionamento pelo inconsciente, particularizando o sujeito e suas resistências, escutando e ressignificando os traumas, ela se empenha na psicogênese do sofrimento individual.

      Neste espectro de sintonia, a autora relaciona os ganhos da teoria crítica ao examinar questões remetentes às subjetividades das massas, com contributos analíticos e mais ao pensar o conceito de identificação enquanto base de formação da sociedade, ou pelo menos dos movimentos de massa. Fundando sua abordagem na teoria de Sérgio Paulo Rounet a respeito da inovação que a psicanálise confere ao se examinar a noção de racional como elemento apenas circunstancial. Além de proporcionar ganhos na discussão sobre a ideologia. Pontualmente Denise Lima nos leva ao cume de sua montanha, ela argumenta a relação existente entre o habitus (tanto das teorizações de Elias e de Bourdieu) enquanto categoria fronteiriça com o inconsciente freudiano e seu traço mnêmico.

      Quando se levanta uma problemática tão densa, os cuidados epistêmicos devem ser redobrados, existem questões sociológicas e psicanalíticas que precisam ser avaliadas. Destacaria a questão do inconsciente, ele não é sociologizável, pois Freud o presumia “atemporal” e consequentemente o espaço enquanto localização cultural seria nada mais que um substrato ignóbil. Assim tornaria central compreender as inscrições subjetivas do inconsciente nas relações sociais, algo que foi feito no livro, mas muito superficialmente. Possivelmente acrescentaria o fato de ver as circularidades subjacentes às dimensões psíquicas e sociais, como o conceito de processo civilizador. A autora circunscreve sua perspectiva na chave das escrituras teóricas entre a sociologia e psicanálise almejando contribuir para um maior ganho de emancipação humana.

      O impossível dessa relação não significa que ela é impraticável, na medida em que ambas são dedicadas a compreender o homem e suas implicações sociais e subjetivas. No entanto, elas se atraem e se repelem ao mesmo tempo. São atraídas pelas possibilidades de enriquecimento teórico e prático que uma conserva a outra, se repelem na matriz explicativa de seus fenômenos. Seria justamente esse equívoco insolúvel entre a psicanálise e a sociologia, essa erotização lancinante e mortificação inevitável que pode funcionar como bússola de sua interdisciplinaridade, pois é nesse processo ao qual os pesquisadores aventureiros poderão encontrar aquilo que precisam e não aquilo que estão buscando.

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Referências:

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo. Tradução Denise Bottmann. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

GOULEJAC, Vincent. O âmago da discussão: da sociologia do indivíduo à sociologia do sujeito. Cronos, Natal, v. 5, n. 1/2, jan./dez. 2005, p. 59-77.

 

COMO CITAR ESTE TEXTO

LIMA, Alef de Oliveira. Sociologia e a Psicanálise: onde está o impossível? Questões epistêmicas de uma trama interdisciplinar. Fortaleza, CE: 2015. Disponível em: <http://adobservare.com/2015/01/18/sociologia-e-a-psicanalise-onde-esta-o-impossivel-questoes-epistemicas-de-uma-trama-interdisciplinar >. Acesso em: dia mês. ano.

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