Resenha do Documentário: “Saudades do Brasil”

por Alef Lima

            O filme “Saudades do Brasil” nos apresenta em aproximadamente duas horas e alguns minutos uma pequena parte da densa experiência antropológica e acadêmica do antropólogo Claude Lévi-Strauss. O filme se inicia com ave, um pombo. E pelas explicações formidáveis de Jean Malaurie[1] que analisa junto com outros professores de renome e com Caetano Veloso a singela sofisticação do pensamento de Lévi-Strauss, tendo como base central da argumentação o livro “Tristes Trópicos” onde o autor sintetiza elementos etnográficos, biográficos e literários ao relatar sua vivência em solo brasileiro.

            Lévi-Strauss veio ao Brasil na segunda leva de professores franceses contratados para auxiliar na criação da Universidade de São Paulo (USP) e assim formar uma elite intelectual fundada sobre a égide da dimensão culturas trazida das ciências e literaturas europeias. Mas o que o antropólogo procura é o exótico e o nosso francês não fugiu a regra, organizando expedições ao Brasil central na busca de entender simbologias e mentalidades indígenas das tribos remanescentes no nosso território entre elas: Os Bororo, os Nambiquara e os Cadiueu.

            Bem esses seriam os aspectos fundamentalmente teóricos e técnicos que interessariam a um estudante de Antropologia. No entanto é preciso compreender como esse documentário biográfico, entrevistas cheias de saudades não declaradas e diretamente misturadas com flashes explicativos se combinam de tal modo que a feitura do vídeo que aparenta ser apenas estética e ilustrativa. É na realidade uma sutileza residual do pensamento de Lévi-Strauss.

            Começando pelo pássaro, o que aquela ave do começo do vídeo nos remete: a uma viagem, porém Lévi-Strauss inicia o “Tristes Trópicos” dizendo que detesta viajantes e exploradores. Seria um descompasso entre imagem e ideia? A ave sinaliza uma metáfora do deslocar-se tão cara ao autor, é um sair-se de si, uma distância combinada entre a asa e o vento. Os movimentos onde a figura de Lévi-Strauss parece sair entrar e andar em diversos espaços é o signo de sua perspectiva, a distância fundamenta a ausência que por sua vez torna a viagem inteligível ao astrônomo-antropólogo.

            Eis o que vi eis o que sou. Uma citação do antropólogo que é bem característica da antropologia estrutural que se pretende complexa e irreduzível. Somos o que vemos, mas não vemos as mesmas coisas e também somos vistos. Quando Lévi-Strauss a vista a Baía da Guanabara na cidade do Rio de Janeiro, repara a imperfeição triste de uma boca sem dentes. E assim essa visão triste o acompanha em toda a sua vivência no Brasil. Ele entende que a sensibilidade é estranha a beleza e a alegria.

             Foi o Brasil que escolheu Lévi-Strauss, foi uma aclamação do destino sua vinda pra cá. A frieza do racionalismo francês é aos poucos redimensionado pelo calor do sul, pelo suor de nossas misturas. Por nossas cidades incivilizadas pulsando de cultura, transformadora de barbárie em selvageria e de selvageria em civilização. Uma descrição assim denota as saudades cálidas que estavam contidas no autor.

            Além desses pressupostos humanistas o filme nos mostra a importância crucial de Dina Lévi-Strauss e de sua amizade com o escritor brasileiro Mario de Andrade. Nas expedições e cartas trocadas entre Dina e Claude Lévi-Strauss se desenrolam os aspectos humanos do mito. Tudo é permeado por laços sociais, aquilo que é humano em sua experiência.

            Mas o que é Lévi-Strauss, mais além do seu pensamento? Ele veio das simetrias da Europa e encontrou a assimetria vibrante dos Bororo. Veio procurando índios exóticos e encontrou a força dos Guaikurus justamente na familiaridade de suas relações sociais. Não teria como ficar intocável a tudo isso. Sua impressão dessa civilização enamorada do calor humano o fez transformar a sua antropologia do exótico em uma antropologia do humano por excelência.


[1] Jean Malaurie é o editor francês da obra: Tristes Trópicos de Lévi-Strauss.

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