Ensaio: A difícil tarefa de nomear o século XXI

por Alef Lima

            O nome de uma coisa, um acontecimento ou mesmo de uma pessoa carrega um significado. No caso especifico das palavras procuramos a origem etimológica que explicitam sua gênese – algo que é praticado de maneira frequentemente pelos filólogos. Examinar o século XXI em termos de nomenclatura implica o reconhecimento de duas medidas que se complementam mutuamente.

            O primeiro peso é como demarcar a origem de um século e o segundo é de que forma compreender o primeiro por um olhar retroativo que envolva por assim dizer, os elementos de uma historicidade antecedente e correspondente. As duas medidas cabíveis são bem simples: uma consiste em analisar os acontecimentos significativos do século no interior de sua própria trama, e a segunda é recolher nossas próprias experiências como subsídios interpretativos. No entanto essas experiências devem ser mediadas pelo contraste intersubjetivo que a história nos concede.

            Como somos sempre todos iniciantes na história é interessante andar com certo cuidado por entre os labirintos de vozes que soluçam nomes simples e perspectivas mecânicas para explicar a ação humana. Falemos do nosso século como nos orienta o historiador inglês Eric Hobsbawn: como algo que é parte nós, com certas pré-noções que significam nossas percepções, mas, sobretudo na tentativa de compreender acima da necessidade de julgar – compreenderemos então até as dificuldades de falar claramente sobre nossa época.

            Hobsbawn em seu livro A era dos extremos: o breve século XX estabelece o acontecimento da Primeira Guerra Mundial (1914) e o final da União Soviética (1991) como respectivamente começo e fim de um século. Podemos indagar que existe uma série de fatores para isso: (I) primeiro é que o tempo cronológico não alcança o histórico, (II) segundo o mundo naquele contexto sofreu uma reviravolta sua alteração foi tão potente que mudou a datação da temporalidade era algo novo que urgia. (III) Terceiro existia uma gama de condições sociais e políticas que diferenciavam  o período anterior ao início da Primeira Guerra e o seu posterior. Entre outros que não poderiam ser expostos.

            Mas se é no fim da União Soviética que se inicia outro momento na história, seria a parti daí que surgiria a esfinge que tentamos nomear como século XXI?  De fato a queda da União Soviética enquanto figura que assombrava o espírito capitalista significou para o mundo um novo passo e instauração do que se convencionou chamar de Nova Ordem Mundial – caracterizada pela figura potente dos Estados Unidos como paladino da democracia racional e do uso da ‘liberdade’ ocidental como meio político legítimo. Alguns falam em multipolaridade, quer dizer, os acordos políticos e econômicos são feitos a partir de ganhos gerais a todos os países envolvidos. Se realmente ocorresse de tal maneira não haveria uma economia central que coordenassem os movimentos mais gerais do sistema global.

            Outro ponto que marca a atualidade de nosso tempo é emergência da globalização, não apenas no seu aspecto econômico que se constitui evidentemente como o mais marcante e viabilizador de todos os outros, mas aqueles que se instauram de outra maneira como o cultural e o tecnológico. O computador enquanto tecnologia foi criação de guerra e suas funções eram eminentemente militares, com advento da globalização são como teoria dos fluxos financeiros, mas também como prática tecnológica ele se popularizou na década de noventa. Passa a ser produto administrativo das empresas, uma máquina funcional organizada em torno de grandes conglomerados que disputam não apenas a hegemonia econômica, mas a hegemonia tecnológica como meio completo de garantias lucrativas para seus acionistas.

            Em nível cultural a globalização aparece por vezes com faces contraditórias: uma é a homogeneização do mundo em padrões psíquicos de consumo e desenvolvimento econômico e a segunda são os nexos de interculturalidade que ela expõe, diálogos possíveis entre pessoas e coletividades, contatos e releituras que conseguem minimamente atravessar padrões homogêneos e inverter a polaridade de seu fim original, dominar e expandir passam a ser compartilhar e discutir. Esse procedimento é feito por meios de novas tecnologias telemáticas como as redes sociais e seus dispositivos agregadores.

            Tudo que discorremos até serviu apenas para caracterizar o período de gestação do século XXI, não o é em sua intensidade. Porém ainda falamos sobre um feto já pronto e formado – é verdade – no entanto não estava suficientemente apto a nascer com sua ferocidade. Todo parto é como uma explosão, dor e medo ou alegria e alívio por vezes são indiscerníveis num momento como esse.

            Pontuaremos para fins gerais e afetivos que o Atentado as Torres Gêmeas nos Estados Unidos no dia 11 de Setembro de 2001 pode ser uma boa data para conceituar seu nascimento. Foi um acontecimento que inverteu por alguns segundos a crono-lógica do mundo, tudo pareceu mais lento e ninguém sabia o que de fato estava acontecendo se era uma conspiração norte-americana ou se realmente ele foi atingido em cheio no seu próprio território por uma das alegorias que já melhor distinguem este século de seu antecessor direto: o terrorismo.

            Não é tanto o que aconteceu que nos marca enquanto coletividade, mas as consequências que denotam os efeitos daquele fato. O primeiro é que tal evento nos surpreendeu e o segundo é o signo de mudança política e social que subjaz ao atentado, ele instaura o início de uma política cognitiva: uma ordem política confusa, pois não sabe mais distinguir amigo de inimigo. Fornecendo assim elementos para um Estado de Exceção onde liberdades civis há muito garantidas se esvaem em nome da ilusão de segurança. Os Estados Unidos clamam por uma revanche e conseguem, mas quem realmente vence uma disputa como essa?

            Com efeito, isso mobilizou uma complexa rede de aparatos militares e planos antiterroristas enigmáticos e irracionais. Não só por seus argumentos que são fracos de elementos racionais e suficientemente densos de atributos retóricos e fantasmáticos, mas por ser capaz de instaurar de modo subjetivo o medo do outro e de sua diferença com uma capacidade incrível de mexer com os impulsos mais agressivos da massa – acreditando lutar por sua segurança e pelo bem maior. E assim altera-se não a forma de lidar com a alteridade, mas a intensificação com que é usada para aplacar a pluralidade de pensamentos que ameaçam mesmo que de maneira tímida o pensamento único que viceja ao lado a economia capitalista tirando dela sumo e sustento.

            Às vezes nosso século é chamado como aquele onde às utopias foram desfeitas, implodindo seu lugar social, deixando por vezes um vácuo que nos macula historicamente, em outros momentos nosso século se torna um sinônimo de futuro frequentemente ouvimos esse tipo de sentença de nossos contemporâneos: Em pleno século XXI! Quando se quer aludir a um fato, hábito ou fenômeno que se considera ultrapassado dentro da trama histórica, assim essa valoração progressiva dar um tom de futuro em curso a nossa época. Entretanto, falar da contemporaneidade é complicado por que ela nos recobre como uma onde em movimento, sendo assim todas as palavras ditas debaixo d’água são incompreensíveis e por vezes inaudíveis. Somos levados pelo mar do tempo e tudo que sentimos e pensamos ainda está emaranhado.

            Os nomes da contemporaneidade são muitos, quase o mesmo número que uma divindade misteriosa que se ergue onipotente entre os mortais pode ter. Supermodernidade, sociedade da informação, pós-industrialísmo, pós-modernidade, modernidade tardia, modernidade reflexiva ou líquida, sociedade do conhecimento, entre outros. Difícil rotulação essa, assim como é variado o número de estudiosos que se aventuram na descoberta de compreender o nome antes de entender a coisa. Podemos citar nomes: Zygmunt Bauman, Daniel Bell, Peter Drucker, David Harvey, Alvin Toffler, Alain Touraine, Marc Augé, Jean Boudrillard, Guy Debord, Jean-François Lyotard, Anthony Giddens, entre outros. Um time inteiro de cientistas sociais, antropólogos, filósofos, historiadores que compõe uma verdadeira nau de dizeres sobre a atualidade.

            Cada uma a sua forma revela um aspecto do prisma do tempo histórico e aos poucos ele nos parece feito um quebra-cabeça que se monta dialeticamente entre fatos que se interconectam e interpretações que se acumulam. O consumo como ethos, a velocidade como condição e o processo de fusão biotecnológica se entrelaçam – o ser humano se metamorfoseia num ser múltiplas capacidades alçadas na amplificação do controle técnico-informacional proposto pelo capitalismo, os laços sociais se liquidificam não sustentam mais a correspondência subjetiva de outrora. Os movimentos sociais ganham status de virtualidade englobam não mais pautas fechadas, mas solicitam pluralidade e abertura constante. Talvez uma tentativa de restabelecer conexões – fazer emergir outra vez do emaranhado de fios a natureza viva de um ser qualquer.

            Mesmo com a amplificação do poder humano sobre a terra e o espaço, a natureza constantemente mostra sua força inexorável, é ilusão pensar que é o fim do mundo, e que é por causa dos animais e plantas que lutamos pela preservação do verde. Deixemos essa justificativa altruísta de lado e falemos de maneira sincera sobre o nosso medo de instinção. É como fala o antropólogo francês Claude Lévi-strauss: o mundo começou sem o homem e irá acabar sem ele. Talvez para os mais afoitos seja o fim dos tempos ou mesmo a reinvenção criativa que se anuncia na era de aquário.

            Até esse momento o que sabemos é que se trata de um novo tempo que atua por meio da infinidade de seus sujeitos, o significado e o nome dele nos ainda não temos e provavelmente não teremos de maneira unívoca. É certo que a mídia, a publicidade, a informática, o cyborg, o virtual, a imagem que vale mais do que mil palavras são elucubrações de sua forma e, portanto alusões de possibilidades que seus sentidos podem adquirir. Mas não o definem em absoluto – ainda não o vimos em sua metade o que possuímos é apenas uma década. Claro acompanhamos os nove meses de sua gestação que se arrastam desde a crítica do projeto moderno e sua administração funcional da vida. Os anos 60, 70, 80 e 90 foram quase como uma contagem regressiva para o surgimento desse fluxo temporal que chamamos de século XXI, o importante é que ainda podemos inventar o seu nome e modificar seus sentidos.

 

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 2005.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos.  Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. 4 ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: 1995.

KUMAR, Krishan. Da sociedade pós-industrial à sociedade pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

MATTELARD, Armand. História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.

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