Resenha do livro “Émile Durkheim: Sociologia”

RODRIGUES, José Albertino (Org.). Émile Durkheim: sociologia. 3. ed. São Paulo: Ática, 1984

               O professor José Albertino Rodrigues sob a coordenação maior de Florestan Fernandes organizou esse livro no intuito de oferecer à academia sociológica brasileira um material de introdução sobre a vida e obra de Émile Durkheim. Rodrigues foi professor de sociologia da Universidade Federal de São Carlos, faleceu em 1992 aos 64 anos, ele foi considerado como um dos pilares das ciências humanas no Brasil por seu forte empenho na institucionalização do ensino de sociologia nas Universidades o que lhe deu muito prestígio (NOGUEIRA, 1993), sendo homenageado após sua morte pelos alunos de ciências sociais da UFSCar que lhe fizeram permanente referência por meio do Centro Acadêmico José Albertino Rodrigues.

                O livro traz uma introdução de autoria de Rodrigues e passa então a apresentar diversos textos próprios de Durkheim. Partes essas que foram extraídas dos livros: A Ciência Social e a Ação, As Regras do Método Sociológico, Sociologia e Filosofia, O Suicídio, Jornal Sociológico e das Formas Elementares da Vida Religiosa. Esses textos de Durkheim foram organizados em três partes: (I) Objeto e Método, (II) Divisão do Trabalho e Suicídio e (III) Religião e Conhecimento. Cada uma dessas partes são subdivididas em itens que nada mais são do que recortes da obra do sociólogo francês.

                Rodrigues vai organizar seu livro a partir de duas demandas. A primeira diz respeito ao fato de que a sociologia no Brasil ainda estava se organizando como disciplina nos meados do século XX (FERREIRA, 2003). Essas circunstâncias iniciais eram caracterizadas por uma carência bibliográfica e instrumental, principalmente para os iniciantes, e por isso a necessidade de popularizar os textos do próprio Durkheim e de outros autores clássicos. Essa necessidade leva Florestan Fernandes a organizar a coleção “Grandes Cientistas Sociais” e Rodrigues toma parte nesse projeto ao apresentar Émile Durkheim de uma forma introdutória, porém não menos importante. A segunda demanda respeitada por Rodrigues tem haver com sua própria concepção e entendimento sobre Durkheim e sua obra. Esse entendimento de Rodrigues sobre o fundador da sociologia está bem apresentado na Introdução do livro, mais especificamente no que ele chama de “teoria sociológica durkheimiana” ou “esquema teórico” (1984, p. 30).

                Rodrigues reconhece que a teoria sociológica durkheimiana “corresponde a uma certa violentação” do pensamento de Durkheim, mas que é justificada quando num recorte para fins didáticos (1984, p. 30). O esquema apresentado por Rodrigues parte de um fundamento objetivo sobre Durkheim que traz à tona os conceitos de morfologia social e fisiologia social. Durkheim recebeu influência do pensamento organicista do século XIX levando-o a considerar os fatos sociais e as estruturas de funcionamento sociais como a parte fisiológica da sociedade; e que as caracterizações reveladas pelos indivíduos, grupos e instituições, as manifestações culturais, práticas e realidades fariam parte da morfologia social, morfologia essa que era de menor importância para Durkheim (2012, p. 39-40), mas ocupa um espaço notável na organização de Rodrigues.

                A partir dessa teoria Rodrigues oferece sua visão que se baseia na existência de quatro núcleos primordiais da produção durkheimiana que se organizam entre os conceitos de fisiologia e morfologia social. O primeiro núcleo seria a religião, “vinculada às representações coletivas” (RODRIGUES, 1984, p. 32) e que seria responsável para compor a própria concepção de mundo, sendo parte integrante da fisiologia social. O segundo núcleo, também fisiológico, seria a moral que representa boa parte da preocupação durkheimiana pelo fato dela estar vinculada a “consciência coletiva” e que a moral seria um fato social fundamental por que se impõem aos indivíduos por intermédio da coerção social. O terceiro núcleo situa-se na compreensão da divisão do trabalho que seria a manifestação prática (ou morfológica) do conceito de solidariedade social, ou cola-social que garante que indivíduos diferentes continuem unidos em sociedade. O quarto e último núcleo diz respeito ao suicídio que leva em consideração o comportamento individualista, o grupal e a importância das normas sociais e da ideia de que o social transcende o indivíduo. São esses quatro núcleos que levam Rodrigues à escolha de determinados textos de Durkheim em detrimento de outros. Ou seja, a organização do livro, no sentido de seu conteúdo, parte do pressuposto da existência desses quatro núcleos. É conveniente ressaltar que esses núcleos não aparecem de forma ordenada ou sequenciada dentro da organização capitular do livro de Rodrigues, mas eles permeiam quase todo o livro.

                Talvez a grande contribuição legada por Durkheim esteja no fato de que ele foi o primeiro a criar definitivamente um método para a sociologia. O próprio termo sociologia surge de forma mas autônoma a partir da introdução dessa cadeira na Universidade de Sorbonne, introdução essa que foi capitaneada por Durkheim em 1910. Com as Regras do Método Sociológico o sociólogo francês torna-se o fundador dessa ciência em termos práticos. Pois é a partir dele que a Sociologia define, de forma concreta, qual o seu Objeto: fato social; e qual o Método: observação, distinção, comparação, constituição, explicação e administração das evidências (DURKHEIM, 2012). Apesar de muitos considerarem O Suicídio como a obra prima de Durkheim, é muito importante lembrar que tal livro é na verdade a materialização das suas descobertas anteriores sobre o fato social e sobre o método sociológico. As grandiosas e inovadoras conclusões apresentadas sobre o suicídio são uma exemplificação de como a sociologia é capaz de produzir conhecimento independente, a partir dos dois constituintes básicos de qualquer ciência: o Objeto e o Método. E é por isso que o que há de mais valioso nas obras de Durkheim é justamente a descoberta desses dois constituintes ou elementos básicos, sem eles nenhuma outra obra de Durkheim viria a existência, nem mesmo O Suicídio. E aqui talvez consista a maior falta de Rodrigues na sua organização, uma vez que ele dedica muito pouco espaço para o que há de primordial dentro da contribuição Durkheimiana: o Objeto e o Método da Sociologia e sua inauguração como ciência. Nada mais há do que um único texto de Durkheim sobre o Objeto e nenhum texto foi apresentado que discuta o Método na sua forma mais geral, como apresentada em As Regras do Método Sociológico.

                Rodrigues foi muito feliz na organização de seu livro sobre Émile Durkheim. No entanto, é possível pontuar outras três limitações da obra. Logo de início é clara a percepção de que a organização de conteúdo do livro se baseou no esquema teórico proposto por Rodrigues (1984, p. 31) e que portanto já é uma visão particularizada ou tendenciosa sobre Durkheim, não que haja total prejuízo da obra por isso, mas pela ausência de uma (I) contextualização mais recente sobre as produções atuais a partir de Durkheim, (II) de críticas sobre Durkheim, e (III) de uma organização que também levasse em conta o progresso metodológico de Durkheim ao longo e sua vida.

                O próprio Rodrigues afirma que a obra de Durkheim “é um exemplo de obra imperecível, aberta não a reformulações, mas a continuidades” (1984, p.33), no entanto faltou apresentar, mesmo que de forma breve, quais os estudos ou discussões que tem dado continuidades ao pensamento do sociólogo francês, não que houvesse necessidade essencial nisso, mas seria um subsídio adicional importante para quem deseja se aprofundar no autor. Segundo, não há nada além do que poucas referências à alguns críticos da obra de Durkheim, falta algo mais explicativo ou elucidativo que pudesse dar ao iniciante um contraponto importante para compreender Durkheim na disciplina. Terceiro, muitos acadêmicos e sociólogos compartilham da ideia de progresso metodológico em Durkheim. As primeiras obras dele são marcadas por uma visão organicista muito forte, o que é visto em A Divisão do Trabalho Social e Elementos de Sociologia. Com a publicação de As Regras do Método Sociológico, Durkheim finalmente inaugura a sociologia e começa a tê-la como ciência, de fato. A Proibição do Incesto e suas Origens e O Suicídio são obras que materializam essa percepção sociológica como ciência, utilizando inclusive metodologia quantitativa com cruzamento avançado de dados. Em Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), já no final de sua produção, Durkheim agora constrói o que podemos chamar de um ensaio antropológico, utilizando de etnografias como meio para suas análises, o que marca a última fase durkheimiana em relação aos seus métodos de pesquisa. Essa percepção sobre as fases metodológicas de Durkheim também está ausente no livro de Rodrigues.

A despeito dessas três ausências ou elementos faltantes, o livro é recomendável, principalmente para os ainda estudantes das ciências humanas e para todos aqueles que tem um interesse particular sobre o autor francês, vida e obra.

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REFERÊNCIAS

 DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: EDIPRO, 2012.

FERREIRA, Delson. Manual de sociologia: dos clássicos à sociedade da informação. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2003.

NOGUEIRA, Oracy. Homenagem: José Albertino Rosário Rodrigues. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 1, n. 1. 1993.

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COMO CITAR ESTE TEXTO:

SANTOS, Harlon. Resenha do livro “Émile Durkheim: Sociologia”. [S.l]: Blog Observare, 2013. Disponível em: < http://wp.me/pFciT-5E >. Acesso em: dia mês abreviado. ano.

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