Pós-modernidade: fragmentação, tensão e radicalização

……O surgimento de um novo contexto sociocultural quase sempre provoca mudanças estruturais e de abordagens nas mais variadas instituições da sociedade. A educação, por exemplo, ao longo da era moderna passou por pelo menos três revoluções diferentes, que giraram em torno das discussões sobre cognição e mente em Herbart, liberdade e democracia por Dewey e finalmente a emergência do oprimido em Paulo Freire. As mudanças atraem mudanças, e a educação, para garantir sua relevância teve que elaborar essas três teorias ou modelos educacionais hoje latentes. harlon.romariz@advir.com

……Na área empresarial temos o mesmo. Ao longo dos últimos 50 anos no campo material, houve um busca crescente por alta tecnologia, informação e mais recentemente pelo domínio e/ou organização da informação. No campo humano, a tradicional compreensão das gerações em BB, X, Y e Z provocou mudanças no comportamento empresarial ao ponto de modificar a estrutura física e gerencial das empresas.

……E como a igreja tem reagido aos novos contextos socioculturais? As mudanças, os novos projetos e metodologias que surgem são construídos a partir de uma compreensão mais solidificada da realidade humana? Se a igreja está mudando como instituição, na tentativa de manter sua relevância, quais então os marcos teóricos que a tem guiado?

……Ao colocar o ser humano em perspectiva, nossa busca por compreensão e conhecimento acaba sendo dividida em quatro âmbitos. O primeiro consiste no ser humano como pessoa, nível este estudado pela psicologia; a psicologia social talvez se concentre no ser humano quando em grupo; já as ciências sociais entendem o homem na sua prática quando em sociedade; e finalmente a filosofia é fruto da abstração desse indivíduo em relação ao mundo e ao outro.

……Assim, qualquer proposta de mudança empreendida, seja ela estrutural, comportamental ou metodológica deve passar primeiro pela compreensão do ser humano nestes quatro níveis e assim encontrar parâmetros que possam guiá-la. Por limitações pessoais, vamos apresentar apenas algumas das teorias e discussões/visões mais recentes (pós-modernidade) que procuram explicar o ser humano em seu nível societário e filosófico.

VISÕES DE ÂMBITO SOCIOLÓGICO

……Em meados dos anos 60 a sociedade viu florescer o movimento de “vanguarda” e posteriormente o surgimento de identidades geradas por um discurso de radicalização da modernidade. Andreas Huyssen (apud ADELMAN, 2009, p. 214) argumenta que a terceira fase da pós-modernidade é caracterizada por essas identidades que emergem a partir de elementos centrais de um “pós-modernismo de resistência”. Para Huyssen o “pós-modernismo contemporâneo […] opera num campo de tensão entre a tradição e inovação, conservadorismo e renovação, cultura de massa e alta cultural”. Essa tensão ocorre principalmente nas questões de gênero, poder, sexualidade, sociedade, cultura, política; pela crítica à modernização, destruição do meio ambiente, e pela revalorização de culturas não europeias e não ocidentais. (op. cit)

……No entanto essa “emergência de novas identidades” é “fraturada” pela “erosão da ‘identidade mestra’” (HALL, 2006, p. 21). Stuart Hall em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade argumenta “de que as identidades modernas estão sendo ‘descentradas’, isto é, deslocadas ou fragmentadas”. Nenhum indivíduo defenderia indubitavelmente uma só identidade ou ideologia, nem mesmo seria satisfeito com benefícios específicos para determinada identidade, mesmo que essa fizesse parte dele.

O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado;composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas.Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais ‘lá fora’ e que asseguravam nossaconformidade subjetiva com as ‘necessidades’ objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. (op. cit., p. 12)

……Não há padrão para julgamento da realidade social e nem para orientar os interesses pessoais.

As pessoas não identificam mais seus interesses sociais [e culturais] exclusivamente em termos de classe; a classe não pode servir como um dispositivo discursivo ou uma categoria mobilizadora através da qual todos os variadosinteresses e todas as variadas identidades das pessoas possam ser reconciliadas e representadas. (op. cit., p. 20, acréscimo nosso)

……Segundo Hall (2006, p. 34-46) a “descentração do sujeito”, ou seja, a morte do sujeito cartesiano recebeu forte contribuição do que ele chama de “discursos de ruptura”. Esses discursos foram (I) os referentes ao modelo de Marx, em especial pela redescobertas de seu pensamento nos anos 60 que considera que os “homens (sic) fazem a história, mas apenas sob as condições que lhes são dadas”; (II) a descoberta do inconsciente por Freud, orientando que nossa sexualidade e a volição são “formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente”; (III) a descoberta de que as palavras têm significados mutantes por Ferdinand Seassure; e (III) os estudos de Foucault sobre as relações de poder e as estruturas disciplinares.

……Hall ainda tenta compreender o processo de globalização e conclui que existe um novo e instigante debate de revalorização do local o que provoca uma tensão, pois “o autor defende que a globalização tem um efeito contestador e deslocador das identidades centradas e fechadas de uma cultura nacional.” (apud TEIXEIRA, 2006, p. 163). harlon.romariz@advir.com

……Outro teórico muito importante para a compreensão do indivíduo na pós-modernidade é Bernard Lahire. Por meio de uma extensa pesquisa empírica Lahire conseguiu demonstrar que a cultura tem sua maior expressão em nível individual. Esse conhecimento traz grandes implicações para os conceitos de legitimidade social, crença, dominação, hierarquias, puro e impuro entre outros (2006, 15-17). Lahire propõem que se veja a cultura em escala individual levando a uma construção sociológica do indivíduo e alterando as formas de classificação e registro culturais. Em sua pesquisa percebeu “ambivalências, oscilações ou alternâncias […] dentro de cada campo cultural e/ou de um campo a outro” (p. cit., p. 18,19) entre pessoas consideradas de um mesmo domínio cultural e entre a pessoa em si, o que ele chama de “variações intra-individuais”. Ele explica que esse fenômeno é um produto da interação entre “a pluralidade de disposições e de competências culturais incorporadas” e “a diversidade de contextos culturais” e considera que “a origem e a lógica dessas variações são plenamente sociais” (op. cit., p. 20) e não psicológicas.

VISÕES DE ÂMBITO FILOSÓFICO

……Uma marca do pós-modernismo que se arrasta desde o existencialismo é o conceito relativista. A medida que o ser humano experimenta temporalmente a realidade percebe que o modelo cartesiano é muito limitado. Não há como encontrar explicações generalistas e nem tentar estabelecer um padrão de interpretação da realidade, o que contribui para a deposição da racionalidade, desvalorizando assim discursos apologéticos.

……Outra crença bastante aceita no meio teórico seja a da “desconstrução das narrativas”. As narrativas/metanarrativas segundo Bruner (apud MATTOS, 2010, p. 589) são todas as histórias e narrativas formadas para representar “organizar a experiência humana”, Fivush (apud MATTOS, 2010, p. 589) ainda afirma que “narrativas são a maneira por meio da qual compreendemos e fazemos sentido de nossas experiências diárias, e esse processo ocorre nas interações sociais”. Por algum tempo se propôs rejeitar as narrativas e Lyotard chega a definir a condição pós-moderna como um estado de incredulidade em relação as metanarrativas, onde narrativas menores e múltiplas coexistem sem que nenhuma alcance legitimação universalizante (1984 apud HUTCHEON, 2002, p. 1), como foi com a Bíblia na Idade Média. Andreas Huyssen, no entanto, ao reconhecer que “narrativizar é uma necessidade humana fundamental” passa a concordar “completamente com a desconstrução de metanarrativas”, uma vez que as narrativas são necessárias para dar “significado (sentido)” (apud MAURÍCIO, 2009, p. 150) à vida humana e, o que deveríamos rejeitar, é seu conteúdo e não a narrativa em si.

REFERÊNCIAS

ADELMAN, Miriam. Visões da Pós-modernidade: discursos e perspectivas teóricas. Sociologias, v. 11, n. 21, p. 184-217, 2009.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. 102 p.

HUTCHEON, Linda. A incredulidade a respeito das narrativas: articulando pós-modernismo e feminismos. Labrys: estudos feministas, n. 1,2, p., 2002. Disponível em: <http://e-groups.unb.br/ih/his/gefem/labrys1_2/index.html&gt;. Acesso em: 09 mar. 2011.

HUYSSEN, Andreas. After the great divide: modernism, mass culture and postmodernism. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 1986.

LAHIRE, BERNARD. A cultura dos indivíduos. Porto Alegre: ARTMED, 2006. 656 p.

MATTOS, Andrea Machado de Almeida. Narrativas, identidades e ação política na pós-modernidade. Educação & Sociedade, Campinas, SP, v. 31, n. 111, p. 587-602. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302010000200015&nrm=iso&gt;. Acesso em: 14 mar. 2011.

MAURÍCIO, Ana Fabíola. Entrevista a Andreas Huyssen. Comunicação e cultura, n. 7, p. 141-151, 2009.

TEIXEIRA, Elizabeth. Resenha:aidentidade cultural na pós-modernidade. Texto Contexto Enferm, v. 1, n. 15, p. 162-163, 2006.

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